CEA e CPDA debatem o terceiro governo Lula no lançamento de dossiê da revista Lua Nova
Mesa com pesquisadores da UFRRJ, UFRJ e UERJ analisou os impasses políticos e econômicos do atual governo
O Centro de Estudos Avançados da UFRRJ (CEA/UFRRJ) recebeu, nesta terça-feira (20/10), o lançamento do dossiê “Lula 3: equilíbrio precário, democracia travada”, publicado na edição nº 128 da revista Lua Nova, do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec). Organizado por André Singer, Bernardo Ricupero, Cicero Araujo e Fernando Rugitsky, o dossiê reúne análises sobre as contradições do terceiro governo Lula.
O evento foi organizado pelo CEA e pelo Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA/UFRRJ), e faz parte das comemorações dos 50 anos do programa. A mesa reuniu Marina Basso, Sérgio Leite (UFRRJ), Leonardo Belinelli (UFRRJ), Lena Lavinas (UFRJ) e Guilherme Leite Gonçalves (IESP/UERJ), com comentários da professora Priscila Delgado de Carvalho (UFRRJ).
A primeira fala, de Marina Basso, tratou da direita brasileira no Congresso Nacional. A pesquisadora apontou o fortalecimento dos partidos, em especial do PL, que ganhou capacidade de renovação e de mobilização eleitoral. Segundo ela, as forças conservadoras já não se resumem às bancadas ruralista, evangélica e da segurança pública, e o que surge é uma direita disruptiva, que assume abertamente sua identidade num momento de crise do neoliberalismo.
O agronegócio, frequentemente visto como parte desse bloco, foi o tema de Sérgio Leite, que rejeitou a ideia de um setor homogêneo. Há disputas internas, e nem todo o agro é bolsonarista ou contrário ao governo, afirmou. O professor lembrou que o setor depende de recursos e políticas do Estado, e que sua relação com o poder público passa por conflitos em torno da agenda ambiental e dos direitos territoriais.
Leonardo Belinelli recorreu ao conceito de autocracia burguesa, de Florestan Fernandes, para discutir os limites do governo. Para ele, a frente que derrotou o projeto autoritário nunca teve um programa comum de transformação social. Belinelli também falou do peso da disciplina fiscal e da fragmentação das negociações políticas. Sobre a situação das famílias, observou que a melhora do emprego e da renda não acabou com a insegurança econômica, mantida pelo endividamento.
O endividamento voltou à mesa com Lena Lavinas, para quem as políticas públicas estão cada vez mais subordinadas à lógica financeira. A economista citou a emissão de títulos sustentáveis para bancar políticas sociais e climáticas e o avanço das parcerias público-privadas em saúde e educação. Ela também criticou programas como o Desenrola, que devolvem os inadimplentes ao mercado de crédito sem atacar as causas da dívida.
Guilherme Leite Gonçalves seguiu na mesma linha e falou de uma financeirização que deixou de ser restrita às elites e chegou às massas. Como exemplo, mencionou os títulos Educa+, que atrelam o acesso futuro à educação ao desempenho do mercado. Na avaliação dele, o Estado não se limita mais a reduzir riscos para o investidor privado (o chamado de-risking) e passa a criar ele próprio novos tipos de ativos financeiros.
Ao comentar as falas, Priscila Delgado de Carvalho retomou o fio que ligou as apresentações, a relação entre democracia, desenvolvimento e financeirização. As exposições mostraram como interesses econômicos e o arranjo político da coalizão de governo limitam as possibilidades de mudança no país.
O dossiê completo está disponível no site do Cedec: https://www.cedec.org.br/revista-lua-nova-no128-lula3-equilibrio-precario-democracia-travada/
